J M L

11 de Novembro de 2009

Paz na Terra

1 - Hoje à hora do jantar, no Vasco da Gama, a torneira que deita música ambiente passou de uma canção gospel (daquelas que chegam a um apogeu de gritaria e parece que nunca mais acabam) para "Love Will Tear Us Apart" dos Joy Division. Que, por sua vez, abriu caminho a uma versão, também gospel, de "Silent Night", com a voz acanhada de Mariah Carey (acho que era ela) em primeiro plano. Uma pessoa interrompe a refeição e fica a pensar no que é que passou pela cabeça do bicho doente que programa estas coisas.

2 - Atenção a "Bad Romance", o vídeo e a canção de Lady Gaga (link mais abaixo, a poucas mensagens de distância). Vê-se e ouve-se isto e fica-se com a mesma sensação de se estar a assistir a um momento Especial e de Viragem na história da pop com que se ficou ao ver e ouvir "Like a Virgin" de Madonna em 80 e poucos.

3 - Este blogue não perde grande tempo a vaguear pelo passado, mas esta é uma versão de "Chain Reaction", pelos Steps, que quero ter aqui. Um daqueles casos pontuais em que a recriação supera o (magnífico) original. Uma recriação que transborda de vida:

Alicia Keys - "Try Sleeping With a Broken Heart"

Darkstar - "Aidy's Girl's a Computer"

Time Out 111

Depeche Mode

Bass Clef

Nelly Furtado

GusGus

10 de Novembro de 2009

Eric Cartman ft. Kenny & Kyle - "Poker Face"

Lady Gaga - "Dance in the Dark"

McAlmont & Nyman - "Take the Money and Run"

4 de Novembro de 2009

Time Out 110

Megafone 5

David Sylvian

David Fonseca

Pink Martini

3 de Novembro de 2009

Prefab Sprout

(publicado em Outubro no Actual do Expresso)


Prefab Sprout
Let’s Change the World With Music
Kitchenware

Em 1993, e já sem o restante trio ou o influente produtor Thomas Dolby, o génio complicado de Paddy McAloon tirou sozinho da cartola este “Let’s Change the World With Music”, o álbum que devia ter sido o sucessor de “Jordan: The Comeback”, de 1990 – e é precisamente a essa sucessão que soa o disco enfim arrancado aos arquivos. Um disco onde McAloon procura “a transcendência através da música”, como explica num livreto onde sublinha o quanto do seu perfeccionismo e ambição paralisantes se fixam em Brian Wilson e nos seus “abismos subterrâneos de azul”. “Let’s Change…” faz-se de música concebida como gesto arrebatador e místico. Quatro das 11 faixas usam a palavra “music” no título, três empregam “love”, um par delas recorre a “God” e “gospel”. Uma foi acanhadamente intitulada ‘Earth: The Story So Far’. São canções que sabem de facto a 1993, sobretudo pela abundância de sons electrónicos que à época eram state of the art – e ainda bem que assim se desafia o anacronismo e sai-se vencedor. Paddy McAloon continua a lançar-se a cada canção como se ela fosse a derradeira, a apoteose da sua existência. O resultado é uma pop majestosa, doce, calorosa, exaltante, meticulosa. Jorge Manuel Lopes

Xutos & Pontapés

(publicado em Outubro no Actual do Expresso)


Ao Vivo ‘88
Xutos & Pontapés
3 CD + DVD Universal

A reedição do primeiro álbum de palco dos Xutos & Pontapés é um caso exemplar de como uma obra musical deve ser revista e aumentada. “Ao Vivo ‘88” saiu originalmente no final de 1988 e documenta o fim da digressão que revelou o quarto álbum de inéditos, “88”. Das 19 faixas da edição original de “Ao Vivo ‘88” passou-se para 28 temas em CD, a que se junta um importante DVD com o registo de palco, produzido para a RTP. A remasterização sonora parece imaculada. Já as imagens em vídeo retêm as particularidades técnicas da época e denunciam o desgaste do tempo – tudo coisas boas. “Ao Vivo ‘88” apanha os Xutos consolidando o seu papel de banda cimeira do rock português, depois de um trio de álbuns de antologia (“78-82”, “Cerco” e o best-seller “Circo de Feras”) e do primeiro de muitos discos desiguais, mas sempre com algum tema acrescentável ao cânone (no caso de “88” há ‘Enquanto a Noite Cai’ e o imenso ‘Prisão em Si’, ambos aqui audíveis). A banda que se encontra em “Ao Vivo ‘88” transpira euforia, entregando os temas a uma velocidade bem mais acelerada do que a memória registava – um ímpeto punk-rock que é notável na sequência ‘Barcos Gregos’/ ‘Longa Se Torna a Espera’/ ‘Mãe’/ ‘Circo de Feras’.

28 de Outubro de 2009

Janet Jackson - "Make Me"

Fan Death - "Reunited"

Time Out 109

Sítios para música ao vivo em Lisboa e arredores:

Do Oriente a Alcântara, da Moita a Sintra, a capital e os arredores abundam em bares, clubes e restaurantes que já não passam sem música ao vivo. Nas páginas que se seguem, Jorge Manuel Lopes oferece-lhe um guia de estilos para lugares novinhos em folha ou centenários, esquecidos ou consagrados. Mas antes de mergulhar nos especialistas, é de bom tom afixar este quadro de honra lisboeta da noite musical em directo. Se começar por aqui, de certeza que começa bem

Cabaret Maxime
Não se deixe distrair (pronto, deixe-se) pelo historial de mulheres voluptuosas de escassa roupa ou pelos preciosos souvenirs de outras eras (cartazes, capas de discos) que adornam as paredes do cabaré da Praça da Alegria. Sim, porque aqui, agora, cultiva-se mesmo a sério a música e o entretenimento. Por estes dias, as sessões de terça-feira estão entregues à comédia stand-up, mas daí em diante há crooners mais ou menos charmosos com strippers vintage de luxo, bailes burlescos, pop, rock e funk de cá e do estrangeiro, e até Ágata.
(Praça da Alegria, 58, tel: 213467090)

Fábrica Braço de Prata
Neste vasto edifício na zona oriental da cidade há livros por toda a parte, e não são só para embelezar as prateleiras. Sim, também nunca faltam exposições, teatro e cinema. Mas é para a música ao vivo que o Braço de Prata mais serve, com três salas a laborar a pleno vapor: a Visconti, a Nietzsche e a Prado Coelho. De quarta a sábado, é só picar o ponto na Fábrica e escolher entre jazz, pop, world music, experiências sónicas, fado…
(Rua da Fábrica do Material de Guerra, 1, tel: 96 743 5743)

Galeria Zé dos Bois
A ZdB é a santa padroeira dos psicadélicos inveterados; dos freaks que twittam; dos amantes daquele jazz abrasivo que há muito ultrapassou a última fronteira; dos defensores da pop de baixo orçamento mas ruidosa, festiva e com toneladas de cor; dos cientistas electrónicos minimais e ascéticos até à medula; dos viajantes de todos os sons do mundo que caibam num ficheiro mp3 manhoso. Em dois pisos e num terraço, todos têm tempo de antena. Os concertos podem acontecer em qualquer dia da semana. As surpresas também.
(Rua da Barroca, 59, tel: 21 343 0205)

Music Box
Não é bem uma caixa, antes um paralelepípedo atravessado por arcadas que, sob a Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, funciona como o único exemplar lisboeta daqueles clubes eclécticos de música ao vivo que uma pessoa imagina abundarem em cidades como Londres, Barcelona ou Nova Iorque. No Music Box há lugar para quase todas as tribos, embora o rock tenha uma ligeira vantagem. Os concertos costumam acontecer entre quarta e sábado, mas o palco pode ganhar vida em qualquer dia da semana.
(Rua Nova do Carvalho, 24, tel: 21 343 0107)

Onda Jazz
Sendo o jazz um bicho generoso, é natural que na sua onda venham muitos sons amigos. Deve ter sido mais ou menos por este raciocínio que um trio de aventureiros (de que Thierry Riou é o mais conhecido) se meteu faz agora cinco anos. Resultado: no Onda Jazz, em Alfama, de terça a domingo, janta-se e ouve-se jazz (nacional, estrangeiro, miscigenado) e música de África, da América do Sul e de recantos de Portugal. Consta que todos se dão bem entre si, e essas coisas propagam-se pelas mesas.
(Arco de Jesus, 7, tel: 21 888 3242)

Santiago Alquimista
Nesta casa na Costa do Castelo nunca houve discriminações, o que faz dela um lugar bastante requisitado para festas universitárias, concertos rock, maratonas punk e, ultimamente, um volume crescente de sofisticados cantautores estrangeiros. O palco baixo e a abundância de mesas e cadeiras no piso térreo e na varanda que a rodeia podem favorecer um ambiente de intimidade que vem mesmo a calhar quando se tem canções onde a palavra e o registo confessional são coisas de relevo.
(Rua de Santiago, 19, tel: 21 888 4503)

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AFRICANA
Casa da Morna
A Casa da Morna é uma casa dedicada a Cabo Verde – pela comida (o espaço é, primordialmente, um restaurante), pelas artes plásticas (uma da suas áreas está permanentemente ocupada com exposições) e, claro, pela música. Entre os artistas residentes contam-se Tito Paris, também um dos proprietários da Casa (é escutá-lo à quinta-feira no restaurante, onde a banda sonora se deseja mais tranquila), e outro histórico, Dany Silva, que se ocupa da animação do bar às sextas e sábados, a partir da meia-noite (aqui já com mais ritmo). Mas também há surpresas. “É costume aproveitarmos a passagem de artistas de Cabo Verde por Lisboa” para levá-los ao palco da Casa da Morna, conta Ademiro Almeida, também proprietário do espaço. Do leque de visitantes que já por ali passaram em cinco anos de actividade destaca Baú, “que é raro aparecer em Portugal”. Além disso, de vez em quando Tito Paris recebe a visita de amigos como Rui Veloso e Mariza, que não saem dali sem mostrarem o que valem.
(Rua Rodrigues Faria, 21, tel: 21 364 6399)

Associação Cabo-Verdiana
Lisboa e arredores não têm exactamente razões para se lamentarem da falta de sítios para provar comida africana enquanto se escutam mornas, coladeiras ou funanás. Mais difícil é descobrir outro poiso onde seja preciso escalar oito andares e dar de caras com música ao vivo… ao almoço. É o que sucede na Associação Cabo-Verdiana, onde às terças e quintas, das 12.30 às 14.30, Zézé Barbosa pega na guitarra e eleva a voz. Assim, até a cachupa, a cerveja e o resto sabem (ainda) melhor.
(Rua Duque de Palmela, 2, 8º, tel: 21 353 1932)
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BRASILEIRA
Lusitano Clube
Quando pedimos recomendações a amigos, conhecidos e profissionais da coisa sobre o sítio ideal na cidade para escutar música do Brasil ao vivo, as respostas saíram surpreendentemente unânimes: é favor rumar a Alfama e ao vetusto Lusitano Clube, fundado vai para 104 anos, onde todas as terças-feiras se reúne a Roda de Choro Lisboa, hiperactiva formação que se entrega a deliciosas sessões musicais onde cabem baiões, polcas, sambas-choro, valsas, etc. “Eles tocam aqui há 54 semanas, sem interrupção”, avança Luís Carvalho, presidente da direcção do Lusitano. Ao bailarico acorre gente na casa dos 80 anos, e por aí abaixo até aos 20. Curiosamente, “70% das pessoas que cá vêm à terça são de fora da cidade, o que para nós é uma surpresa. Da última vez recebemos um casal de Évora, que veio a Lisboa de propósito por causa do baile.”
As noites da Roda de Choro são um balão de oxigénio para uma colectividade que, há um ano, quando Luís Carvalho tomou posse, se encontrava em “estado de coma”. Não que apareçam muitos brasileiros para dançar – portugueses à parte, as terças têm uma forte participação de “gente nova que está cá através do Erasmus: italianos, alemães, franceses, ingleses, holandeses e muitos espanhóis”. Gente que frequenta as aulas de samba, bolero e gafieira, também à terça, e que fica para pôr os conhecimentos em prática ao som da Roda. É esta audiência heterodoxa que desagua no Lusitano e dá vida a uma casa encravada numa “zona velha, com pessoas de uma faixa etária elevada que pensam duas vezes antes de saírem de casa”.
(Rua São João da Praça, 81, r/c, tel: 21 886 9472)
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COVERS
Rock in Chiado
Os nomes das bandas que passam por este bar-restaurante dizem ao que vêm com clareza q.b.: os Oitentamente especializam-se em versões de êxitos da década de 80; Bad Name é um colectivo que presta cuidadoso tributo aos Bom Jovi; e The Fly só pode ser uma banda com os olhos (e os óculos escuros) postos nos U2. As bandas de covers e de tributo são os dois pratos principais da ementa musical do Rock in Chiado e são maioritários nas noites de quinta a sábado, à frente dos serões de karaoke à quarta-feira e da aposta regular em jovens bandas pop-rock.
Esta é banda sonora de um espaço que abriu portas em 1941, chamou-se Nini, e que só há três anos assumiu a forma de Rock in Chiado. O público que aqui vem atrás das bandas de versões é “muito abrangente”, descreve João Mesquita, responsável pela sala. À excepção dos clientes dos jantares universitários que, nesta altura do ano, preenchem os fins-de-semana, a média etária de quem vem aos espectáculos de covers e tributo corresponde à idade das bandas homenageadas. Quando o assunto são os U2 ou os Queen (a grupo de Freddie Mercury tem aqui uma sombra chamada One Vision), a plateia enche-se de quarentões e cinquentões, mas chegada a vez de recriar os standards grunge dos anos 90, com largo e inevitável destaque para os Pearl Jam, é ver os trintões a entrarem pela porta. Todos podem ir ao Rock in Chiado “só para beber um copo e ouvir música”. Tradução: o restaurante está separado do bar.
(Rua Paiva de Andrade, 7/13, tel: 21 346 48 59)

Arena Lounge
Nada a temer: a ampla sala que recebe os que entram no Casino Lisboa não tem fama de fazer jus ao nome, devorando os músicos que dão por si em plena Arena. E muitos são os músicos que por ali passam todos os dias da semana, ocupando posições na ranhura a eles destinada numa das paredes a sala. O som que dali sai tanto pode andar pela homenagem à bossa nova e aos blues como pela entrega de êxitos pop-funk-soul das últimas décadas, quer em versões aparentadas com os originais, quer em reviravoltas jazzísticas.
(Casino Lisboa, Alameda dos Oceanos 1.03.01 Parque das Nações, tel: 21 892 9000)

Speakeasy
Se a ideia é procurar um sítio sofisticado onde escutar uma gama altamente versátil de canções que apelam à memória enquanto janta ou bebe um copo, então aqui tem virtualmente tudo o que precisa. No departamento musical, e de terça a sábado, é tão frequente deparar-se com gente de elevado currículo técnico a recriar clássicos do jazz vocal e da bossa nova como conhecer algumas das bandas com maior rodagem no circuito das covers + tributos rock. Incluindo os grandes dinossauros dos grupos que em Portugal se dedicam às versões de temas alheios – os temíveis Ferro & Fogo, há 31 anos ao seu dispor.
(Cais das Oficinas, Armazém 115, Rocha Conde d’Óbidos, tel: 21 396 4257)

Templários Bar
Não consta que os proprietários deste bar em Alvalade sejam cavaleiros em missão evangelizadora, mas não faltam exemplos de quem passa por ali de segunda a sábado e fica convertido ao espaço (mesmo que o romance não seja de longa duração), sobretudo a população que aprecia músicos de fino recorte técnico, de preferência ao serviço de canções reconhecíveis aos primeiros acordes. Bandas importante do circuito de covers da capital costumam animar os Templários, dos XPTO aos Soulbreezz e aos Pim Pam Pum.
(Rua Flores de Lima, 8 A, tel: 21 797 0177)
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FADO
Tasca do Jaime
Casas com espectáculos de fado em Lisboa há aos molhos, mas quando se procura uma onde seja possível contornar a refeição a preços generosos e reduzir a experiência (e a despesa) ao eixo essencial fado + petisco + um ou dez copos, as opções afunilam dramaticamente. É neste pequeno grupo que se vai encontrar a tasca que Jaime Nunes e a sua esposa, Laura Nunes, gerem há duas décadas, e que passou a ter uma equipa de músicos ao dispor de cantores de ocasião quando se chegou à década de 90. “O Jaime sempre gostou de fado, comprava instrumentos e gostava de tocá-los aqui”, lembra Laura Nunes. “As pessoas que iam a passar na rua ouviam-no e paravam, entravam e perguntavam se podiam cantar, e foi a partir daí que isto começou a desenvolver-se. Aconteceu tudo sem planearmos. Não teve a ver com dinheiro.”
Aos sábados, domingos e feriados, pela tarde, a pequenina Tasca do Jaime fica de lotação mais do que esgotada para ouvir fado que brota, literalmente, das ruas e vielas da freguesia da Graça. A plateia dessas sessões mistura clientes mais do que habituais e muitos curiosos, nacionais e estrangeiros, que aqui chegam por recomendação directa de amigos ou familiares que foram à Tasca, gostaram e levaram cartões da casa. Todavia, todos eles têm de submeter-se a uma regra basilar desta cultura: “Quando chega a hora do fado, sou rigorosamente rígida”, previne Laura Nunes: “Se querem assistir, têm de estar calados. A parelha de músicos é paga, mas a recompensa que podemos dar aos cantores é o nosso silêncio.”
Entre os repetentes encartados da Tasca do Jaime destaca-se Álvaro Rodrigues. “É um senhor que tem 88 anos, canta e já foi poeta, mas fazia isso tudo como hóbi. Diz-nos que foi fiscal dos azeites. Sempre veio cá ao fim-de-semana, sentava-se a uma mesa e estava ali a escrever versos. Ainda canta, mas nem sempre. É uma referência muito boa, muito alegre.”
(Rua da Graça, 91, tel: 21 888 1560)

Bartô
O bar do Chapitô com a vista estonteante sobre Lisboa na página do fado? Se se espanta é porque tem andado distraído. Todas as terças-feiras, a partir das 22.00, o Bartô acolhe as “Noites de Tertúlia Onde o Fado Acontece”. Neste caso, o fado acontece a partir de uma equipa fixa de três músicos, comandada pelo guitarrista Ricardo Rocha, e que se completa com a viola de Marco Oliveira e o contrabaixo de João Penedo A eles junta-se, em cada semana, uma voz convidada. Se gosta de fado que não tem receio de se meter pela modernidade e por caminhos menos ortodoxos, tem de subir até ao Bartô.
(Rua Costa do Castelo, 7, tel: 218867334)

Mesa de Frades
Muita gente procura esta capela de Alfama transformada em casa de fado para mergulhar na Lisboa antiga, jantar com vista sobre painéis de azulejos com mais 200 anos e esperar pelo momento em que as pesadas portas de madeira se fecham. É nesse instante que, entre o silêncio e as luzes enfraquecidas, a música começa – e só pára à terça-feira. Para turistas ou para cidadãos de Lisboa, a Mesa de Frades é sítio de justificada reputação e visita francamente aconselhada – e pode aparecer só depois da refeição, que ali não falta de beber.
(Rua dos Remédios, 139 A, tel: 91 702 94 36)

A Tasca do Chico
No Bairro Alto, a casa de fado mais falada, requisitada, barata, mítica é gerida por um retinto… portista. Às segundas e quartas à noite canta na Tasca quem quiser, e quem quiser tanto pode ser uma estrela do tamanho de Mariza como o não menos mítico taxista que, ao início da madrugada, pára o carro à porta, irrompe por aquele espaço pejado de cachecóis futebolísticos e de história(s) do fado emoldurada(s) e ocupando todos os centímetros de parede, solta a voz amparada pelas cordas das guitarras, sai e volta a arrancar rua afora.
(Rua do Diário de Notícias, 39, tel: 21 350 6022)
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JAZZ
Catacumbas Jazz Bar
Não abundam os espaços em Lisboa e arredores onde se possa escutar jazz com aquela regularidade militante a que se costuma aplicar o termo “clube”, mas os poucos que existem ostentam uma programação que parece feita para se evitar sobreposições, o que é sensato.
Um desses espaços tinha que estar, inevitavelmente, na grande caldeirada de estilos e tribos chamada Bairro Alto. No Catacumbas Jazz Bar dá-se tempo de antena ao jazz e aos blues, e nem Manuel Pais, o dono da casa, escapa à tentação de subir ao palco: quando por ali passar e reparar que há sessão de blues com um tal de CatMan, pode ter a certeza que Manuel Pais estará no mesmo lugar, à mesma hora. Quando em 1998 transformou o café de bairro que estava nas mãos da família desde 1963 no Catacumbas, Pais já “gostava de jazz há muitos anos”, mas não conhecia muita gente do meio jazzístico da capital, o que obrigou a um estabelecimento gradual de contactos que agora já lhe permitem ceder o palco com regularidade a estudantes de música.
É o próprio Manuel Pais que descreve as salas do Catacumbas como um conjunto “pequeno, acolhedor e informal”. E não se pense que o nome da sala e as suas dimensões são uma espécie de convite ao elitismo: “O ambiente não é muito especializado. Temos todo o tipo de público.” Numa semana normal de Catacumbas, começa-se sempre com jam sessions de jazz (à segunda) e blues (terça), e a música ao vivo prossegue até sexta.
(Travessa Água da Flor, 43, tel: 21 346 3969)

Be Jazz Café
Funciona como a célula de resistência do jazz na margem sul. Com sede no Barreiro, é um espaço nocturno de porta aberta de quarta a sábado, mas é somente ao sábado que se os instrumentos musicais entram em acção. É frequente encontrar por ali músicos internacionais. E não se espante se ao jazz se juntarem outros aromas, do funk à soul, mas sobretudo os blues, a bossa nova e o rock dos anos 70, que vem conquistando os favores do público nos últimos tempos.
(Rua Salvador Correia de Sá, 14, Barreiro, tel: 93 324 4400)

Espaço Lisboa Jazz Club
Abriu no início deste ano em Alcântara, e às sextas-feiras, a partir das 22.00, dá vida musical ao primeiro andar do restaurante Espaço Lisboa. Tem ao leme Laura Ferreira, cantora experiente em várias tonalidades jazzísticas, o que ajuda a que a programação do clube seja heterodoxa, podendo chegar à “bossa nova, easy listening, blues e fusão” (lê-se no respectivo site). E se não houve tempo para comer antes de vogar até ao Espaço Lisboa Jazz Club, saiba que há aqui ceia à sua disposição.
(Rua da Cozinha Económica, 16, tel: 21 361 0210)

Hot Clube de Portugal
É, de longe, o papa dos clubes vocacionados para o jazz em Portugal, e um caso invulgaríssimo de longevidade: 61 anos a servir de plataforma para uma música que nasceu na América e ganhou sotaques próprios no resto do mundo. O Hot Clube é uma cave pequena (mais um jardim que ajuda a respirar quando as condições climatéricas permitem) que recebe jazz feito por músicos portugueses e estrangeiros de terça a sábado, incluindo gente que se forma no seu próprio estabelecimento de ensino, a Escola de Jazz Luís Villas-Boas. Indispensável.
(Praça da Alegria, 39, tel: 21 346 7369)
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KARAOKE
Musicais
Podemos já estar na extremidade ribeirinha de Alfama, mas não é por isso que o fado não chega à Doca do Jardim do Tabaco, entra subtilmente pela esplanada do Musiciais e instala-se… na máquina de karaoke. Boa opção, a do fado, já que este é um dos repertórios favoritos de quem ali procura ser cantor durante três minutos e meio. Quem o diz é Tiago Lacerda, responsável da casa, não deixando de ressalvar que a pop e outras sonoridades “muito variadas” também têm os favores da população. Tudo com um ponto em comum: “Cantam-se maioritariamente músicas portuguesas.”
E é habitual a malta entusiasmar-se com as cantorias, virar presença assídua no karaoke do Musicais e dar por si pequenas lendas locais? Tiago Lacerda é magnânimo na resposta: “Estrelas são todos, porque o que interessa é participar e divertir-se. Mesmo quem canta muito mal sobe ao palco e passa a sentir-se uma estrela.” Mas também há estrelas, ou pelo menos gente publicamente conhecida, das revistas e/ou da televisão e/ou dos discos, que já ali abriu a boca para dar música ao Musicais. Lacerda lembra-se de já lá ter ouvido Alex (sim, Mister Gay), Pedro Granger, Ana Lamy e Raquel Matos Cruz.
“O karaoke neste momento tem bastante importância na chamada de clientes ao Musicais, e vem muita gente de propósito” a estas sessões, sublinha Tiago Lacerda. De terça a quinta, o karaoke pode ser estimulado pelas promoções a sangria e caipirinha, mas é à sexta e sábado que a coisa dispara: “Muitos grupos organizam connosco jantares e depois ficam para o karaoke.”
(Av. Infante D. Henrique, Doca do Jardim do Tabaco, Pav. A/B, tel: 93 853 8193)

Almirante Bar
Tudo o que precisa ou nem sequer imagina precisar parece existir neste complexo para os lados de Loures. Ele é uma quinta para casamentos, baptizados e outros ajuntamentos especiais; ele é um restaurante também vocacionado para encontros de grandes dimensões; e ele é, claro, um bar já com 16 anos de existência e que se orgulha da especialização em karaoke (também tem música ao vivo). A loucura à volta da máquina das canções dos outros acontece todas as quintas-feiras, a partir das nove da noite.
(Rua Comandante Sacadura Cabral 106 B - Ponte de Frielas, Santo António de Cavaleiros, 21 989 8001)

Marisqueira Chinesa
Sim, uma marisqueira chinesa – a capacidade de desenrascanço dita que a culinária chinesa pode ser (quase) tudo o que se desejar. Nesta nobre casa de espaço generoso, a um passo da Avenida Duque de Loulé e a um quarteirão de distância do não menos nutritivo Elefante Branco, há uma máquina de karaoke (a que agora lá está é novinha em folha, um upgrade a sério) que é a pedra de toque de festas de aniversário, despedidas de solteiro, jantares universitários e repastos de confraternização da malta lá do escritório. Reza a lenda que ir à Marisqueira Chinesa e passar à margem do karaoke pode despoletar mil anos de maldição.
(Rua Bernardo Lima, 48, tel: 21 314 0726)
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ROCK
In Live Caffé

Nada de adaptações às três pancadas: em vez de um bar normal com um estrado e um PA manhoso a um canto, o que Joaquim Pereira pensou para o In Live Caffé, em meados desta década, foi “uma casa de música ao vivo a sério. Tivemos em conta os pormenores acústicos, o isolamento, etc. A ideia era assegurar um espaço de qualidade para concertos”.
O In Live Caffé existe na Moita e, apesar de ter aberto as portas há pouco mais de quatro anos, nesse espaço de tempo o seu proprietário já assistiu a uma pequena explosão de sítios similares na margem sul e, ultimamente, a uma certa retracção. Como é que o In Live tenciona resistir a estes caprichos? Embora a casa tenha portas abertas a todos os sabores musicais, olha-se para a sua programação mensal e ela é claramente dominada pelo rock, sobretudo pelo metal, pelos sons alternativos e pelas bandas de versões. Joaquim Pereira encontra duas explicações para esta tendência: “É esse o tipo de grupos que nos procura mais e também o que parece ter mais vontade de tocar ao vivo. Além disso, o metal é o género que atrai mais público.”
O recrutamento de bandas para o In Live Caffé começou pela Moita e arredores, “mas depois a sala criou nome, as pessoas foram passando a palavra através do MySpace, do Hi5 e do Facebook”, e hoje em dia chegam propostas de actuações de grupos de todo o país. E apesar de se tratar de um “negócio muito complicado, porque o que fazemos também é cultura mas não temos quaisquer apoios”, Joaquim Pereira afiança que a agenda do In Live Caffé já está “completa até ao fim do ano. E só com bandas que nos procuraram”…
(Rua João Luis da Cruz, 2, 4, e 6, Moita, tel: 91 718 5869)

Espaço Reflexo
É uma casa de extracção recente. Nasceu em Sintra, a pouca distância do Centro Cultural Olga Cadaval, e nela a Reflexo – Associação Cultural e Teatral produz espectáculos de dança e teatro, organiza workshops e monta exposições. É no bar, que abre portas às sextas e sábados, que todas as semanas se oferece tempo de antena a novas bandas nacionais, sobretudo às que professam a ideologia indie e/ou apreciem sonoridades acústicas e/ou não tiverem problemas em arriscar um módico de experimentação.
(Avenida Heliodoro Salgado, 41, Sintra, tel: 214 213 188)

Livraria Trama
A música que aqui se ouve ao vivo não se resume a um ou dois estilos, mas lá que a Trama costuma dar uma ajuda a projectos nacionais de raiz pop-rock de meios sumários mas imaginação acima da média, lá isso costuma. Além de funcionar como uma livraria de dois pisos, este espaço no Rato também tem cafetaria e gosta de abrir as portas a exposições e performances várias. Os concertos tendem acontecer à sexta e sábado, alturas em que a Trama estica o horário até à meia-noite.
(Rua São Filipe Nery, 25B, tel: 21 388 8257)

Renhau-nhau
Nasceu há muito pouco tempo na Costa da Caparica, o nome evoca felinos estilosos, e tenciona cozinhar uma salada de frutas de artes, disponibilizando o seu espaço para teatro, stand-up comedy, dança, exposições, workshops e exposições – o que é ambicioso. A sala que acolhe concertos é ampla, e vem sendo anfitriã de actuações de grupos rock da zona, de bandas de tributo e de jazz e difícil qualificação. A música ao vivo, promete a gerência, é algo eu pode acontecer em qualquer noite da semana.
(Avenida General Humberto Delgado, 47, Costa da Caparica, tel: 21 291 8900)
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TRADICIONAL
Taverna dos Trovadores
Fernando Pereira abriu as portas da Taverna em S. Pedro de Sintra vai para 20 anos. É certo que ele não deixa de realçar a “óptima garrafeira” que por lá se encontra, assim como a “gastronomia tradicional portuguesa variada” servida no restaurante inaugurado há menos tempo (em 1999), mas desta vez é pela música que a Time Out aqui chega. A Taverna dos Trovadores põe o palco a funcionar ao fim-de-semana e, também neste departamento, a política da casa não vacila: “Aqui há sempre música portuguesa, da tradicional à mais popular.” Sim, um certo sabor celta pode ser adicionado ao caldeirão, e agora também há fado sábado sim sábado não, mas entre cantores mais populares e intérpretes com um universo mais restrito e introspectivo, a identidade da Taverna está protegida.
Há outra razão forte para que a música tradicional portuguesa seja o prato sonoro principal (ou único) da casa. É que Fernando Pereira já vai em quatro décadas de carreira como músico, primeiro a bordo do colectivo GAC – Vozes na Luta, em plena alta temperatura pós-revolucionária. Os anos 80 dividiram-se entre a banda de Paco Bandeira durante um dos períodos de maior sucesso do cantor de Elvas (um grupo de apoio dirigido por Pedro Osório) e os Romanças. Desde 95, Pereira toca guitarra e é a voz dos Real Companhia, formação que, naturalmente, sobe com regularidade (“tocamos aqui de dois em dois meses”) ao palco da Taverna dos Trovadores.
Neste espaço há também uma loja (vende vinhos, compota, especiarias) a dividir as atenções com o restaurante e o bar, e é frequente que alguns amigos das andanças musicais de Fernando Pereira dêem um salto a este canto de S. Pedro de Sintra para comer, beber e, inevitavelmente, subir ao palco. É o caso de Rui Veloso, de Pedro Moutinho ou de José Mário Branco. Dito isto, o anfitrião esclarece que não tem quaisquer dificuldades a arranjar músicos e bandas para completar o cartaz da Taverna: “Há muita malta nova fazer isto. Alguns têm, naturalmente, uma qualidade ainda sofrível, mas o problema com que aqui nos debatemos é mais o de excesso de bandas.”
Sobre a clientela do seu espaço, Pereira esclarece que são maioritariamente “pessoas que sabem ao que vão”. A informação e a recomendação transmite-se “boca-a-boca, e tem sido sempre a multiplicar”. E como o bar tem uma lotação que se fica “mais ou menos pelas 100 pessoas”, é frequente ele encher apenas com a clientela que sai do restaurante para mergulhar na sala de madeira onde se escutam várias raízes da música nacional.
(Praça D. Fernando II, 18 - Porta 6, S. Pedro de Sintra, tel: 21 923 3548)

Inda a Noite É uma Criança
Este bar existe para os lados de São Bento há já um quarto de século e costuma ser gabado pelo ambiente familiar e nostálgico e pelos petiscos de ocasião. A música que lá se ouve costuma sair de guitarras acústicas, e embora a música popular portuguesa seja o tom dominante, não é raro ouvirem-se incursões pela folk de ressonância política de outros tempos. No Inda a Noite É uma Criança, o 25 de Abril é mesmo para sempre. Abre às 22.30, fecha pelas 4.00, e os domingos são mesmo para descansar.
(Praça das Flores, 8, tel: 21 396 3545)

Tambor q Fala
A sede dos múltiplos projectos de Rui Júnior e da Associação Tocá Rufar alberga este café-concerto, que abre ao público todas as sextas-feiras e sábado. A música ao vivo costuma arrancar pelas 22.00, apresentando uma programação variada de onde a música ligada às raízes portuguesas nunca poderia ausentar-se. No primeiro fim-de-semana de cada mês há sempre concertos da Orquestra Tocá Rufar, e para meados de Novembro a organização promete duas noites com o grupo de percussão O Ó que Som Tem?, de Rui Júnior.
(Rua José Vicente Gonçalves, 8J, Parque Industrial do Seixal, tel: 21 226 9090)

Backstreet Boys

27 de Outubro de 2009

Dame Shirley Bassey - "The Performance of My Life"

Najoua Belyzel - "M (Hey, Hey, Hey)"

21 de Outubro de 2009

Alphabeat - "The Spell"

Time Out 108

Três Cantos

Ana Moura

Shakira

20 de Outubro de 2009

Wiley - "Take That"

Kim-Lian & Linda Bengtzing - "Not That Kinda Girl"

Lady Gaga - "Bad Romance"

Rihanna - "Russian Roulette"

19 de Outubro de 2009

Air

(Textos publicados em Outubro no Actual do Expresso)


O léxico do amor

Os Air fecharam a porta da casa nova e ficaram a sós com o seu arsenal de maquinaria, conta Nicolas Godin. “Love 2”, o resultado, é mais optimista do que intimista. Texto de Jorge Manuel Lopes

A música dos Air costuma exigir uma quantidade razoável de mão-de-obra. Nos bastidores daquele som denso e imaterial como bancos de nevoeiro é habitual encontrar letristas e cantores convidados, secções de cordas e uma apreciável equipa de outros músicos, todos contribuindo para a elaboração de camadas sonoras que saltam com facilidade o muro que separa a simplicidade quase displicente das construções épicas.
O tom de graciosa modernidade (ou pós-modernidade; depende dos dias e do ponto de vista) que atravessa toda a discografia de Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel em nada sai beliscado de “Love 2”, o sexto álbum dos Air, editado na passada terça-feira; mesmo que, desta vez, a dupla tenha procedido a uma drástica redução dos colaboradores – só o baterista Joey Waronker é que mantém uma presença constante. Um downsizing que, de acordo com Nicolas Godin, está relacionado com a busca dos parâmetros iniciais dos Air: “Quando começámos a fazer música éramos só nós os dois mas, à medida que fomos obtendo cada vez mais sucesso e viajando por todo o mundo, e isso fez com que conhecêssemos uma data de músicos formidáveis; músicos, produtores, engenheiros de som, orquestras… Aprendemos imenso com todas essas pessoas, e ao fim de dez anos sentimos que devíamos voltar a fazer qualquer coisa mais intimista, só nós os dois.”
Este intimismo não é, todavia, uma peça nova que tivesse vindo alterar dramaticamente o som dos Air. Qualquer ouvinte familiarizado com a preciosa produção da dupla francesa não terá ponta de dificuldade em reconhecê-los ao fim de um punhado de minutos de ‘Do the Joy’, a faixa de abertura de “Love 2”, assim prosseguindo até ao derradeiro ‘African Velvet’. É o conforto do retorno a sítios que já se sabem sedutores e confortáveis, mas que ainda conseguem evitar o resvalanço para a rotina. Já o tom específico de “Love 2”, esse começa a ser claramente explicado logo na mencionada ‘Do the Joy’: este é um álbum que transpira optimismo. Godin: “É verdade. Agora sentimos menos pressão, o que pode ter a ver, novamente, com o facto de já andarmos nisto há mais de dez anos. Quando vamos para o estúdio hoje em dia, percebemos que nos deparamos com cada vez menos coisas impossíveis de realizar, deixámos de ter medo de fazê-las.”
“Love 2” é o primeiro disco dos Air concebido e registado no novo estúdio de Nicolas e Jean-Benoît. Um estúdio localizado em Paris e baptizado com um nome singelo: Atlas. Foi para lá que os Air encaminharam a sua vasta colecção de teclados analógicos; objectos mais ou menos vintage e cuja ‘respiração’ é uma marca central da música dos Air. Dito isto, Nicolas Godin faz questão de sublinhar que o grupo não alinha em grandes fetichismos ou fundamentalismos tecnológicos: “Sim, é verdade que temos imenso equipamento, mas nós gostamos de tudo o que seja bom, que soe bem. Seja analógico ou digital. Podemos usar material digital que permita fazer coisas fantásticas, da mesma forma que podemos usar velhos teclados, velhos Moogs, piano, guitarra eléctrica, guitarra ‘a fingir’… Não interessa muito as fontes de onde extraímos os sons, mas é verdade que os teclados analógicos são assombrosos. O som que produzem é corpulento, quente, natural, cheio de vida. Não se trata de nostalgia, mas quando temos objectos assim, tão cool e divertidos, gosto de usá-los.” Pertencerá então Nicolas àquela classe de arqueólogos-internautas que não descola do eBay, sempre alerta para deitar a mão a equipamento vintage exótico? “Não. Prefiro ir a muitas lojas para comprar o meu material, sobretudo quando andamos em digressão noutros países. Hoje em dia, já deixou de ser divertido andar atrás dessas coisas no eBay.”
Para Nicolas Godin, o maior equívoco em que as pessoas incorrem no que diz respeito aos Air (e isto vai soar ligeiramente contraditório em relação ao que atrás foi declarado) é “acharem que somos perfeccionistas. Que somos uns maníacos obcecados. Somos nada disso: inventamos os sons e registamos tudo bastante depressa, não pensamos muito nas coisas, e quando está feito, está feito. Não gostamos de investir demasiado tempo numa canção. Mas quando ouvirem o novo disco, tenho a certeza que vão achar tudo aquilo demorou uma eternidade a ficar aprontado”. Godin aproveita ainda para contradizer o que parecia ser uma outra evidência no universo Air: a de uma discografia onde cada peça obedece a um gesto conceptual bastante rigoroso. “Nada disso. Seguimos sempre o nosso instinto.” Mesmo assim, admite que, quando ele e Jean-Benoît Dunckel se juntam para arquitectar música nova, muitas ideias vão parar ao cesto do lixo.
A digressão europeia de apresentação de “Love 2” só arranca no final de Novembro (e, por enquanto, não contempla passagem pela Península Ibérica). Até lá, Nicolas e Jean-Benoît andarão ocupados com a escrita de música para a banda sonora de “Quartier Lointain”, adaptação francesa da manga nipónica “Harukana Machi-E”, de Jirô Taniguchi. E depois dos sons para juntar a fitas e de outro giro pelos palcos do mundo, para onde vê Nicolas Godin a música dos Air a dirigir-se? “Não sei nem quero saber [risos]! Acho que vou fazendo discos para tentar perceber isso.”


Love 2
Air
EMI
Em “Love 2”, os Air voltam a entrar nas imagens de Sofia Coppola. Não de uma forma literal, como em “The Virgin Suicides”, mas sob a forma de um regresso em espírito a “Lost in Translation”. Estas 12 canções soam como se tivessem sido feitas às quatro da madrugada num bar com vista panorâmica no 45º andar de uma torre state of the art retro-futurista, a separação do mundo exterior reflectida na textura dos temas. “Love 2” é atravessado, como se de espectros se tratassem, pelo ‘som’ dos painéis de cortiça que forram as paredes, dos vidros duplos e dos quilómetros de alcatifa que calafetam este sítio feliz mas sedado, isolando-o daqueloutro que se vê da janela. Um som desumidificado mas de gestos largos e, por vezes, a aproximar-se de novo do rock progressivo segundo os Pink Floyd. Há até momentos no álbum em que a guitarra e a bateria saem do torpor e entram pelo rock de formas pouco escutadas no passado dos Air, mas “Love 2” vale em boa parte pelo catálogo de texturas implícitas ou explícitas. É sedutor porque soporífero, com o seu saxofone fora de horas, a caixa de ritmos a precisar de descanso e as vozes harmoniosas, de um brilho e suavidade pouco humanos.

14 de Outubro de 2009

Time Out 107

Nick Cave

Batida

Jay-Z

Sean Paul

13 de Outubro de 2009

Groove Armada - "I Won't Kneel"

12 de Outubro de 2009

Madonna

(Publicado em Outubro no Actual do Expresso)


Celebration
Madonna
2 CD Warner Bros./Warner

“The Immaculate Collection” foi a primeira compilação tipo best of de Madonna. Saiu em 1990 e faz inteiro jus ao nome, resumindo uma época de ouro de uma artista pop nascida nas pistas de dança de Nova Iorque. “GHV2”, a segunda, é de 2001 e, ao focar-se na produção ziguezagueante dos anos 1990, reforça os defeitos maiores de uma pretendente a ícone pós-moderno, emitindo os seus boletins sobre o estado da cultura pop a partir da mansão remota onde calhava de habitar naquela semana. “Celebration” é outra coisa: 27 anos de carreira resumidos em 36 canções, boa parte delas vindas da melhor Madonna, aquela que se projecta do hedonismo, das luzes convulsivas e da bola de espelhos da discoteca. Ao abordar o seu percurso por este ângulo, “Celebration” faz com que os momentos mais directos e sublimes (‘Hung Up’, ‘Vogue’, ‘Holiday’, ‘Erotica’, ‘Material Girl’… a lista é generosa) amenizem os devaneios místico-conceptuais datados à nascença de ‘Music’, ‘Ray of Light’ ou ‘Hollywood’. Dois temas inéditos (‘Revolver’, r&b-pop robótico com aparição vocoderizada do rapper Lil’ Wayne; e ‘Celebration’, avisada, fulgurante e populista aliança com o superstar DJ Paul Oakenfold) provam que Madonna não perdeu a mão.

Ellie Goulding - "Under the Sheets"

8 de Outubro de 2009

Client - "Can You Feel?"

7 de Outubro de 2009

Toni Braxton - "Yesterday"

Denny Laine with Paul McCartney and Friends

(publicado em Setembro no Expresso)

In Flight
Denny Laine with Paul McCartney and Friends
Lilith/Mbari

Não deve maior manta de retalhos com o nome de Paul McCartney estampado na capa do que “In Flight”. Denny Laine, músico e compositor britânico, teve êxito a meio dos anos 1960 enquanto fugaz vocalista dos Moody Blues, mas foi quando em 1971 se juntou ao ex-Beatle e a Linda McCartney para formar os Wings que mais deu nas vistas. “In Flight” começou por sair em 1980 com o título “Japanese Tears”, referência à abortada digressão nipónica dos Wings desse ano (McCartney foi detido por posse de droga e o grupo fechou portas logo a seguir), sendo editado com o alinhamento e o nome ‘definitivo’ quatro anos depois. Entre temas gravados pelos Wings e por outras formações, uma faixa escrita em parceria com Macca e regravações de dois velhos sucessos, “In Flight” tem evidente dificuldade em agarrar um fio estético, soando a um showcase apressado das habilidades de Denny Laine. A presença de Paul McCartney é discretíssima mas Laine é um compositor pop competente. Os preceitos melódicos-almofadados dos Wings são seguidos à letra, com acenos frequentes ao country e à folk. O título do disco anseia por uma carreira tranquila e a boa altitude para Laine. Um título claramente optimista, portanto.

Savage - "Twothousandnine"

Perempay N'Dee ft. Cleo Sol - "Time to Let Go"

Time Out 106

Diana Krall

Basement Jaxx/ David Guetta/ Felix da Housecat:

Esta rave não é para tenrinhos

Um bom produtor de música de dança tem de ser, no mínimo, trintão. Não acreditam? Três exemplos chegam?

Não é fácil encontrar gente no rock mais alternativo ou mais mainstream a fazer música resplandecente de vitalidade ao cabo de 15, 20 anos de carreira. Exactamente o contrário do que acontece no bem mais turbulento mundo da música de dança, onde poucos são os que se aguentam muito tempo na primeira linha – mas quando se aguentam, entregam música consideravelmente mais vital, enérgica e atenta ao presente do que a brigada das guitarras eléctricas.
Assim acontece na deliciosa caldeirada de álbum agora inventada pelos Basement Jaxx. Scars (XL/ Popstock), que é o seu melhor registo desde o monumental Rooty (2001), exala uma alegria tão invulgar quanto contagiosa. As suas faixas tanto passam por uma Nova Iorque e uma Londres multiétnicas (ele é reggae tresmalhado, hip-hop, ska, electro…) como deslizam por África e apanham voos para o Havai e para uma rave em Goa, e em todos estes lugares vive-se num eterno pôr-do-Sol de Verão. Há um ror de oportunos cantores convidados (Kelis, Santigold, Amp Fiddler, Yo Majesty, Yoko Ono, etc.), mas é com a voz ténue do Jaxx Felix Buxton, no glorioso “Raindrops”, que Scars chega ao auge.
Não é pelo lado da euforia que se notam diferenças entre Scars e One Love (Gum Prod/ EMI), quarto álbum do produtor e DJ francês David Guetta. A diferença está, isso sim, na geografia e no género: a transa entre a música urbana negra americana e o tecno europeu colorido é um dos fenómenos mais fascinantes que a música popular revelou esta década, e Guetta tem tido um papel importante neste filme – é reparar, por exemplo, nos créditos do óptimo The E.N.D. dos Black Eyed Peas. One Love é um corropio de canções tão simples quanto demolidoras, vozes que trocam as voltas à cabeça (sobretudo a de Kelly Rowland, no hit “When Love Takes Over” e não só), crescendos e efeitos especiais de tecno maximal e golpes electro. Ter ideias fixas deste calibre tem bastantes vantagens.
Felix da Housecat é ainda mais monotemático. Em He Was King (Nettwerk/ Edel) só valem duas coisas, e duas coisas ligadas pelo umbigo: Prince e o electro. A faixa de abertura chama-se “We All Wanna Be Prince” e é um aglomerado de citações musicais e líricas de Sua Purpureza (fase anos 80, claro) que está entre a homenagem e o stalking. O resto de He Was King é excessivo, pornográfico e maníaco, com canções onde os sintetizadores invadem o ouvinte como doenças venéreas – mas em bom.

30 de Setembro de 2009

Britney Spears - "3"

Julian Casablancas - "11th Dimension"

Time Out 105

(Amália Hoje)
Fixem o número 40. Porque 40 mil é o número de discos que o projecto Amália Hoje já vendeu. E porque 40 é o numero músicos que vai ocupar o palco do Coliseu para celebrar o êxito de Amália versão pop. Nuno Gonçalves faz as contas com Jorge Manuel Lopes

Os concertos que vão preencher o primeiro terço de Outubro “marcam o final do ciclo Amália Hoje”, esclarece Nuno Gonçalves, o homem dos Gift a quem coube a tarefa de conceber o disco que reinventou um punhado de canções de Amália Rodrigues para um universo pop e, no caminho, obteve um imenso sucesso de vendas e airplay.
O Coliseu dos Recreios recebe a vasta produção Amália Hoje na segunda (esta data já tem lotação esgotada), terça e quarta-feira 7. No palco vão estar 23 músicos da Orquestra Sinfónica da República Checa, um coro misto de dez vozes, um baterista, um baixista, um guitarrista, Nuno Gonçalves nas teclas e o trio de vozes do projecto: Sónia Tavares, Paulo Praça e Fernando Ribeiro. “Não era nossa intenção fazer concertos, mas depois da recepção do público ao disco achámos que não fazia sentido sermos egoístas”, explica o “maestro” Gonçalves.
As actuações ao vivo “viverão do disco. Vamos recriar os temas do CD, mas também preparei outros temas”, igualmente popularizados pela rainha do fado, de forma a alargar o repertório disponível. Assim, no Coliseu também escutar-se-ão, pelo menos, “Com que Voz” e “Rasga o Passado”, ambas interpretadas pelos três cantores, embora na segunda faixa a voz de Paulo Praça tenha maior protagonismo. A música será envolta num “espectáculo cénico”.
O êxito de Amália Hoje teve uma amplitude invulgar (acaba de chegar à dupla platina, correspondente a vendas superiores a 40 mil exemplares) mas “não suplantou” as previsões de Nuno Gonçalves. “Se o conceito fosse bem comunicado, sabia que tudo ia funcionar bem. Essa era a barreira mais difícil. A nossa intenção era trazer Amália para uma nova geração, valorizando composições já com algumas décadas. Não se tratava de fazer uns Humanos Parte 2. As pessoas reagiram muito bem; só não esperava é que o volume de vendas fosse tão rápido. Hoje em dia, com a indústria como está, mais de 40 mil discos vendidos é gigante.”
Nuno Gonçalves diz que já viu, nas primeiras filas dos concertos de aquecimento dos Amália Hoje, “a avó que se calhar testemunhou a Amália ao vivo, ao lado do neto, que está ali por causa da ‘Gaivota’”. Para ele, Gonçalves, isto é sinónimo de “objectivo alcançado”.

Nuno Gonçalves

Lembras-te do momento em que soubeste da morte de Amália?
Sim, estava no carro a chegar a Alcobaça. Não altura não liguei muito à notícia porque para mim a Amália era uma eterna desconhecida. Mas fiquei um bocado chocado. Pensei que ia estar mais tempo entre nós e na música. Mas não cheguei a casa e fui ouvir os discos dela.

Amália gravou temas em inglês, italiano, francês, espanhol. Achas que essas gravações valem por si, ou só têm o valor da curiosidade por serem cantadas por quem são?
Não, acho que há um grande conceito por trás de tudo isso, o que, hoje em dia, parece-me muito curioso. A Amália é um grande ícone da música portuguesa, mas os defensores dela esquecem-se muitas vezes dessas gravações. A música só beneficia com o não fechar de balizas. É bom chegar a outros mercados

Que canção dos Gift pedirias à Amália para cantar, e porquê?
Essa é tramada! [Silêncio] O “Front of”, a primeira música do Film. Ela cantaria esse tema muito bem. De caras.


(David Ferreira)
Para a semana há mais uma compilação de Amália nas lojas. E se calhar não: Coração Independente é o resultado de uma romagem às fitas originais da rainha do fado. David Ferreira diz a Jorge Manuel Lopes que “o som de Amália está melhor que nunca”

É muito difícil que haja alguém que mais e melhor perceba da carreira de Amália Rodrigues do que David Ferreira. O homem que dirigiu a EMI – Valentim de Carvalho até 2007 (foi na V.C. que Amália gravou o bloco mais significativo da sua obra) foi agora chamado para tratar da escolha do repertório de Coração Independente, compilação com duas encarnações: um disco simples com 20 faixas; e uma edição exclusiva para a Fnac com dois CDs e 35 temas, mais textos de José Manuel dos Santos e do próprio David Ferreira.
Todas canções que se escutam em Coração Independente, de “Gaivota” e “Aie, Mourir pour Toi” a “Povo que Lavas no Rio” e “The Nearness of You”, foram objecto de minuciosa remasterização pelas mãos de Jorge Cervantes, técnico e músico peruano. David Ferreira conta que se recorreu às fitas originais gravadas por Amália entre 1952 e 1975, “um período onde a tecnologia mudou loucamente. Entre material em mono e em estéreo, era preciso mexer muito nas coisas”. A atenção de Cervantes à limpeza das fitas e a questões de dinâmica e à afinação dos instrumentos está, diz David Ferreira, acima da média: “Nunca trabalhei com um técnico assim, com tanto e tão diversificado conhecimento.”
Em Coração Independente tanto há canções em mono como em estéreo: “Tentámos aproximar a qualidade sonora de todas os temas usando como referência as gravações que nos pareceram em melhor estado”. O resultado, garante, é “um trabalho absolutamente fantástico. O som da Amália está melhor do que nunca”. Um som que também será testemunhado na sala de escuta que o CCB reservou para a exposição Amália, Coração Independente (ver texto na página 21), já que o disco foi feito em sintonia com a mostra.
Há ainda muita Amália para descobrir. “Há dezenas de temas inéditos”, revela David Ferreira. “A Amália gravava quando queria.” Para Novembro está prevista a saída de recolhas de canções de Amália Rodrigues em italiano, espanhol e francês, e ainda sobra um desejo de David Ferreira para o Natal de 2009: o lançamento de uma edição de coleccionador, de novo remasterizada a partir das fitas originais, do álbum Com que Voz, de 1970 – “mas não sei se tenho tempo…”.

David Ferreira

Qual é a tarefa mais urgente que falta fazer pelo legado de Amália?
Há imensa coisa. Continuar a catalogação é uma prioridade. Muito trabalho importante nesse sentido foi feito pelo Jorge Mourinha (com a ajuda do Hugo Ribeiro), e esse trabalho ainda constitui a referência, mas os critérios vão mudando, sobretudo em termos informáticos. Também tem que se fazer uma história das sessões de Amália; há zonas de sombra, principalmente na forma como mudam os músicos que a acompanham ao longo dessas sessões. Era preciso fazer umas Amália Sessions. Catalogar o arquivo vídeo é igualmente importante. E falta fazer uma história da relação da Amália com os poetas.

Tem conhecimento de gravações de Amália perdidas pelo mundo, difíceis de encontrar?
Há coisas identificadas, das quais a Valentim de Carvalho está na pista. Há sempre várias coisas que se achavam perdidas e que sempre se encontram. Dou-lhe um exemplo: há 15 anos, quando a CBS americana passou para a Sony, foi necessário esvaziar um armazém. Nesse processo, encontrou-se uma caixa com gravações que o Frank Sinatra havia gravado para os soldados durante a II Guerra Mundial, e aquilo depois deu para uma data de discos. Sabe, as editoras têm de trabalhar sobre a novidade – e ainda bem.

O que acha do projecto Amália Hoje?
Não ouvi bem. Não me pronuncio.

The Legendary Tigerman (entrevista)

(Teratron)
Quem é este par de faces escondidas por capuzes que parece brotar de um imenso esgoto? Os Teratron são a trepidante encarnação electrónica e dançável de João Nobre e Pedro Quaresma. Sim, os mesmos que cuidam do baixo e da guitarra nos Da Weasel. O álbum de estreia chegou esta semana e merece ampla atenção.
Já tinham vontade de fazer uma coisa assim, longe dos Da Weasel, há muito tempo?
Pedro Quaresma: Acho que sim. Já tínhamos chegado a fazer coisas para o nosso umbigo, incluindo uma remistura para os próprios Da Weasel.
João Nobre: Somos duas pessoas que odeiam estar paradas, sem fazer nada, a olhar para o tecto e ver o tempo passar. Aproveitámos todos os pequenos momentos que tínhamos, os intervalos nas tournées, todos os tempos mortos, para ir para estúdio e começar a brincar. Mas as nossas digressões são muito intensas, não dão para tempo para pensar em muita coisa.
Foi um disco gerado em suaves prestações, portanto.
JN: Tudo começou com um tema que nos deixou muito entusiasmados, a pensar que se calhar valia a pena continuar a trabalhar e a brincar com as músicas. Foi o que aconteceu. De repente, já tínhamos duas, três, quatro, e daí surgiu o disco.
A sonoridade electrónica dançável que se ouve em Teratron, e que nada tem a ver com os Da Weasel, é uma coisa que sempre vos interessou?
JN: Sim. Há mesmo muito tempo que queríamos fazer qualquer coisa deste género. É uma área da música de que sempre fomos fãs, e íamos pensando, “Porque não, um dia destes, sair um pouco da nossa esfera e experimentar outros territórios, outros ambientes, outras paisagens?”.
O texto auto-introdutório que se lê no vosso MySpace menciona alguns nomes que vos influenciaram, como Afrika Bambaataa, The Prodigy, a editora Ed Banger, Michael Mayer e os Chemical Brothers. Então e os Daft Punk? Do som ao imaginário de dupla “misteriosa” que vocês cultivam, parece-me a referência mais evidente para o que vocês fazem.
JN: Absolutamente. Acho que [a influência Daft Punk] está bem presente no disco. É, sem dúvida, uma das duplas que mais admiramos e uma das nossas maiores inspirações. Temos tudo deles, desde o primeiro disco.
Os corpos sem cara que aparecem nas vossas fotografias são uma forma de se “esconderem” atrás de umas personagens?
JN: Apenas queremos que a música vá à frente, e não os nomes. Depois, deu-nos um gozo tremendo criar todo este imaginário, e temos tido bom feedback. E com este tipo de bonecos dá para fazer muita coisa gira, dá para trabalhar de uma forma bastante criativa. Isto, para nós, é algo novo. Temos uma carreira como músicos que já vai para 20 anos, mas esta é uma oportunidade de fazer uma coisa diferente.
Pela maneira como falas, este é um projecto que não vai esgotar-se no álbum.
JN: Não. Ainda vem aí muita coisa, mas estamos a dar os primeiros passos. E também queremos levar isto para o palco.
Idealmente, o que é que as pessoas deviam estar a fazer enquanto ouvem esta música?
JN: Já pensei nisso tanta vez [risos]. Ao contrário do que se possa pensar, eu acho que este não é um disco de clube, de pista. Vejo-me mais a ouvir isto no carro, em altos berros…
PQ: Depois da meia-noie. Acho que é um disco para ouvir-se com atenção, de uma ponta à outra.


(Teratron)
Teratron
Teratron
The Red Kids/ EMI
Em escalas distintas e para públicos não inteiramente coincidentes, os Buraka Som Sistema e os Photonz (e a lista aumenta se se vasculhar em alguns nichos) encontraram na música de dança a linguagem global certa para que eles e as suas produções pulem fronteiras com toda a naturalidade. Uma naturalidade que, por questões culturais, a pop e o rock português (sobretudo o que é cantado em inglês, mas o bloqueio está muito para lá das questões de idioma) muito dificilmente algum dia “conquistarão” – e sim, a naturalidade também se manufactura.
O álbum de estreia da dupla Teratron também usa o esperanto da música de dança, e com uma fluência algo surpreendente para quem agora mostra as suas primeiras músicas em público. Uma surpresa que aumenta mais um pouco quando se sabe que este é um projecto de João Nobre e Pedro Quaresma, baixista e guitarrista dos Da Weasel. Não é frequente os músicos de longa data de bandas de sucesso lançarem-se em aventuras paralelas que nada têm a ver com o som que os tornou conhecidos, mas aqui não há dúvidas: exceptuando, vá lá, os socos de baixo funky que assomam pontualmente durante “Miss Monique” e a guitarra à Prince que fustiga “Little Little Pussy”, os Teratron e os Da Weasel são coisas radicalmente diferentes. Teratron progride quase como uma megamix; tem é mais subtilezas e mudanças de tonalidades. No jogo de forças entre o electro e o house que dura durante as dez faixas, o festim ritmíco directo do house começa levar uma certa dianteira, mas é mais perto do electro abrasivo que o disco se conclui. A sombra dos Daft Punk paira sobre todo este álbum febril; sente-se nas cores carregadas e na tridimensionalidade do som, e sente-se no óptimo conceito visual da dupla semi-anónima, meio super-heróis, meio marginais. Melhor referência não há, e cola-se bem a um disco físico, afogueado.

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