Num mundo ideal, uma pesssoa arranja-se, sai para a noite e vai parar a um sítio onde esta canção passa logo após Sam Sparro e imediatamente antes de Calvin Harris.
JML
8 de Fevereiro de 2010
Example - "Won't Go Quietly"
Hyperdub
Publicado em Janeiro no Actual do Expresso:
5 Years of Hyperdub
Vários
2CD Hyperdub/Flur
Steve Goodman (isto é, Kode9) inaugurou as edições Hyperdub em 2004 com uma tresleitura de ‘Sign of the Times’ de Prince. Foi uma estreia improvável e apresentava um ponto de vista pouco ortodoxo sobre o dubstep, no momento em que este género começava a moldar a cultura popular da década passada. A fuga ao conforto e às limitações das editoras-de-género gerou uma alternativa fascinante: o som Hyperdub é uma entidade em mutação constante, música digital e dançável em viagem entre a Jamaica e Londres, com passagens pelo sol da Califórnia e por lojas de sintetizadores em segunda mão em Tóquio. Sem cedências aos buracos negros da experimentação autista. O primeiro CD do comemorativo “5 Years of Hyperdub” está por conta de inéditos e lançamentos recentes. O segundo colecciona clássicos e pérolas dos anos 2000. É assombrosa, a concentração de talentos em duas horas e meia de dubstep e funky púrpura, mais pedaços de trip-hop, dub e g-funk. Pode-se estabelecer uma dieta musical completa só a partir do elenco destes discos – partindo dos incontornáveis Kode9, Burial, Mala ou The Bug mas, sobretudo, seguindo as produções dos Darkstar, Samiyam, Flying Lotus, Cooly G, Zomby, Joker, Quarta 330 ou Ikonika.
5 de Fevereiro de 2010
Tinie Tempah - "Pass Out"
Conheçam uma das primeiras grandes canções da temporada. Onde se prova outra vez que o grime deu um salto quântico quando estendeu os braços à pop e a Ibiza (conferir também Wiley, Dizzee, Tinchy...). Três ritmos diferentes em menos de quatro minutos - é elegível para a categoria de rapsódia?
Selena Gomez & The Scene - "Naturally"
Um momento pop como deve ser, interpretado por uma adolescente como deve ser (tem 17 anos, mas ar de 14 ou 15). Deu para me lembrar de Kelly Osbourne: o último álbum dela, bem interessante, já tem cinco anos...
4 de Fevereiro de 2010
O ABC do Jornalismo Televisivo
Bateu fortemente com a cabeça numa esquina e ficou a pensar que seria uma boa ideia torrar o dinheiro dos pais num curso de jornalismo? Comece então por este vídeo genial onde, em apenas 2 minutos, Charlie Brooker explica o bê-á-bá da peça "informativa" televisiva. Uma lição para a vida, é o que é.
3 de Fevereiro de 2010
Lindstrom ft. Christabelle - "Lovesick"
Como é que se evita o resvalar para o record collection italo-disco? Empregando uma voz que não canta a canção - lambe-a.
Grammys 2010
Find more videos like this on Cherrytree Records
Não é todos os anos que a indústria musical (no caso, a americana) distribui prémios e fá-lo tão acertadamente. Os bons ganharam desta vez: Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Jay-Z, The Black Eyed Peas, Kings of Leon (os KoL do último álbum, não os do trad-rock do passado). E a performance acima estampada é uma coisa rara na pop - Prince deve ter gostado de ver.
Natalia Kills - "Zombie"
Era isto que os Massive Attack deviam ter feito, não era? Pop pós-trip-hop nebulosa, o auto-tune devida e apreciadamente omnipresente.
Mariah Carey ft. Nicki Minaj - "Up Out My Face (Remix)"
Se este não for o ano de Nicki Minaj, há-de ser o ano de quem? Da treta dos XX? Sua Alteza, Mariah Carey, dá-lhe uma ajuda no single que antecipa Angels Advocate. Minaj é as Salt-n-Pepa, Lisa Left Eye Lopes e Lil' Kim, tudo junto, revisto e melhorado. Sensualidade e sentido de nonsense.
Chris Brown
Publicado em Janeiro na Time Out Lisboa:
Chris Brown
Graffiti
Jive/Sony
Chris Brown foi condenado a cinco anos de pena suspensa pelo espancamento da namorada, Rihanna, no ano passado. Não se pode, por isso, esperar que a simpatia pública pela personagem seja mais do que nula – e as paupérrimas venda de Graffiti nos EUA comprovam-no. Grande “azar”, o de Chris Brown, pois este é o seu registo mais ambicioso e satisfatório. Graffiti é uma tentativa, mais anunciada do que explícita, de aproximação à heterogeneidade de um Prince, Michael Jackson e Stevie Wonder. O registo r&b-soul domina, mas há boas passagens pelas baladas rock e por uma pop-electro-funk dos anos 80 e já revista pelos Daft Punk. Os 78 minutos de duração retiram-lhe força, mas Graffiti merece, pelo menos, ser redescoberto num futuro menos magoado.
27 de Janeiro de 2010
JME ft. Wiley - "Sidetracked"
Os versos são entregues sem exaltação. As vozes processadas prolongam as sombras futuristas projectadas por sintetizadores e batidas fundidas sem romper os cabos coaxiais que unem palavras e música. Na verdade, de certa forma nem sequer há palavras-e-música - só introspecção arancada do meio do caos.
Metalheadz & The-Dream
Publicados em Janeiro no Actual do Expresso:
15 Years of Metalheadz
Vários
Metalheadz/Flur
Dos géneros musicais que definiram os anos 1990, o jungle/ drum and bass foi de longe o mais visionário, o mais fresco, o único que não soou em dívida com qualquer tipo de passado. Nessa era dourada, Goldie foi dos escassos produtores a fornecer imagem humana e carismática a um movimento tão futurista como envolto em anonimato. Em 1994, Goldie fundou a editora Metalheadz, que no final do ano passado celebrou década e meia de actividade com esta compilação. Compreensivelmente, a maior fatia de “15 Years of Metalheadz” vem do período 1995-97 e das esplendorosas estações orbitais sonoras de Doc Scott, Dillinja, J Majik e Lemon D, onde ténues linhas melódicas e vaporosos tapetes harmónicos convivem com vírus rítmicos em erupção. A partir dos anos 2000, o drum and bass foi-se circunscrevendo a uma rede global de adeptos em circuito fechado, gesto que garante a longevidade a vários géneros quando o mainstream não lhes liga e/ou a produção estagna em termos criativos. Daí a surpresa perante o fulgor, a euforia e o refinamento da meia dúzia de faixas mais recentes, com destaque para a única contribuição sonora de Goldie para esta utilíssima compilação, na pele de Rufige Kru, em ‘Beachdrifta’.
Love vs. Money
The-Dream
Def Jam
O segundo álbum do compositor, produtor e intérprete Terius “The-Dream” Nash saiu há alguns meses e não teve direito a distribuição nacional ou atenção mediática. Facto bizarro se se tiver em conta que The-Dream foi determinante em duas das canções mais ubíquas dos últimos anos: fez a perfeita “Umbrella” para Rihanna e escreveu e co-produziu a quase perfeita ‘Single Ladies (Put a Ring on It)’ para Beyoncé. Canções que bastavam para fazer dele um dos criadores r&b (logo, pop) imprescindíveis deste tempo, mas às quais junta um trabalho notável para Mariah Carey, Mary J Blige, Usher, Ciara & etc. Mariah Carey e Kanye West são dos escassos convidados de “Love vs. Money”, o ciclo de canções intimistas e nocturnas que, coisa raríssima, prova que é possível fazer um álbum quase todo em midtempo com rumo e criatividade. Em “Love vs. Money”, a voz discreta de The-Dream (da mesma escola de R. Kelly, Usher e Ne-Yo) partilha o espaço com densíssimas camadas de sintetizadores e ritmos que tanto golpeiam a caixa torácica como derramam em cataratas plásticas que remetem para o melhor Prince. Um disco que confirma como The-Dream como um génio da composição e do estúdio.
22 de Janeiro de 2010
Cassie ft. Nicki Minaj - "Fuck You Silly"
Quando se têm ideias para três canções, o melhor é fazer uma única cantiga com os melhores pedaços das putativas três. Tantos sotaques, tantas vozes. "I'm a superwoman, boy/ I fuck you silly".
Young Money - "Roger That"
Nos EUA, discos bestiais de hip-hop e r&b são lançados na última semana do ano, aquele não-tempo que os afasta tanto dos balanços do ano que termina como dos do ano seguinte. We Are Young Money, que junta os artistas da editora de Lil Wayne, deve ser um desses casos. "Roger That" é triunfal, minimal e alegremente malicioso. E é levado pelas vozes persuasivas e carismáticas de Wayne e Nicki Minaj.
Usher - "More"
O homem que ajudou a inventar Ne-Yo regressa com a sua canção mais pop de sempre. Bendita a hora em que se juntou ao sueco RedOne (Lady Gaga, Little Boots, Brandy...). São as novas edições Europa-América.
Ludacris - "How Low"
Ludacris: How Low (Official Video) from DTP TV on Vimeo.
Voz de hélio, rimas volta e meia a 160 km/h, entrada para o refrão importada de Ibiza... O que é que há aqui que não se goste?
Dandy Andy ft. Carmen Castro - "My Lonely Valentine"
Uma canção disco/ hi-nrg dos anos 1980 é regularmente atravessada por uma canção disco-sound dos anos 1970, diva incluída. Os Pet Shop Boys, Liza Minnelli, Gloria Gaynor, Eartha Kitt e Shirley Bassey hão-de gostar.
21 de Janeiro de 2010
2009 Bem Explicado
Os balanços discográficos de 2009 que me passaram pela frente (e, acreditem, foram muitos) deixam a sensação de uma paragem cerebral colectiva. Às vezes tive quase a certeza de ter reencarnado na personagem principal do They Live do John Carpenter. Um caloroso abraço, então, para as únicas listas com sinais evidentes de sanidade: as do Popjustice (singles e álbuns) e do Marcello Carlin. Ambas, naturalmente, sem sombra dos A***** C*********.
Groove Armada - "Paper Romance"
Caros Hot Chip: é assim que se faz synthpop. Sem vozinhas indie de merda. Também é assim que se fazem vídeos com o cansaço urbano, a euforia a derreter cara abaixo. São quatro da madrugada no corpo.
Ellie Goulding - "Starry Eyed"
Demora o seu tempo a levantar voo, mas quando levanta segue pouco linearmente na direcção de Kate Bush. O seu álbum vai ser daqueles álbuns onde valerá a pena parar algum tempo este ano.
19 de Janeiro de 2010
Lemar - "The Way Love Goes"
Canção mais espevitada do que lhe é habitual. Seal podia aproveitar e tirar umas notas. Pena o vídeo, que é um disparate.
Britney Spears
Publicado em Janeiro no Actual do Expresso:
The Singles Collection
Britney Spears
CD + DVD Jive/Sony
Quando se tem uma voz correcta, moldável e que não tropeça em espalhafato; quando se é uma dançarina talentosa e insinuante; quando se tem ambição e um olhar escorregadio que não se deixa fixar; e quando se rodeia de alguns dos mais geniais e/ou visionários arquitectos da pop e do r&b do seu tempo (nomes: Max Martin, Dr. Luke, Cathy Dennis, Neptunes, Bloodshy & Avant, Danja); quando se preenchem todos estes requisitos, é difícil ser uma coisa muito diferente daquilo que Britney Spears mostrou numa década nos tops: uma estrela fascinante, turbulenta, provocante e desarmante, sujeita a máxima exposição mas fugidia. “The Singles Collection” preserva tudo isto em 18 canções e 16 vídeos, do funk pneumático de ‘…Baby One More Time’ à tontura plástica de ‘Toxic’, das viagens ao negrume digital e cubista de ‘Gimme More’ e ‘Piece of Me’ à aparente estabilização corrente como diva do disco-sound, assim tipo Kylie Minogue sem preservativo, em ‘Womanizer’ e ‘3’. Uma compilação quase perfeita (só a sensualidade estilosa e forçada de ‘Me Against the Music’, com Madonna, está a mais), onde se conta uma das histórias musicais fulcrais dos últimos dez anos.
14 de Janeiro de 2010
JLS - "One Shot"
Boy band encontra golpes de sintetizador euro-tecno (ou será euro-pop, ou na volta euro-disco?) em ambiente r&b. Nota mental: ouvir mais vezes os N*SYNC.
Time Out 120
Sítios em Lisboa para ver música de borla.
Snoop Dogg
Malice N Wonderland
Doggystyle/EMI
No livreto de Malice N Wonderland, Snoop Dogg deixa-se fotografar de fato e gravata e de colete brasonado. É a imagem idílica do empresário de sucesso: Snoop ditando uma carta à secretária, Snoop e o seu Porsche à porta dos escritórios da editora Capitol, Snoop e a sua parede de discos de platina, Snoop atrás de uma placa de “Chairman” e ladeado por dois álbuns: Straight Outta Compton dos N.W.A. e Eazy-Duz-It de Eazy-E. Dois álbuns fundadores do gangsta rap, ambos de 1988, a lembrar que esta história já vai longa.
Uma história que vai longa e que mostra com orgulho a sua notável progressão em “Gangsta Luv”. De longe o melhor momento de Malice N Wonderland, “Gangsta Luv” é uma das duas contribuições de Tricky Stewart e The-Dream (feitos prévios da dupla: “Umbrella” de Rihanna, “Single Ladies” de Beyoncé) para este disco. Das suas mãos brotam sintetizadores em bicos de pés que encontram réplica na fonética gota-a-gota com que o refrão é entregue. A melodia é pop, o groove andróide.
Há vários momentos de Malice N Wonderland que não são brilhantes, e um Snoop Dogg em velocidade de cruzeiro não chega para justificar um punhado de temas. Mas depois há aquele seu jeito de juntar uma presença vocal carismática à total permeabilidade face ao arsenal dos que escolhe para co-escrever, produzir e meter voz nas canções. Snoop é hiper-minimal ao lado de Lil Jon em “1800”. É g-funk quanto baste com Dr. Dre em “I Wanna Rock”. É o contraponto cool ao r&b com reforço melódico trazido por Teddy Riley para “Different Languages”. É uma super-produção holywoodesca com Soulja Boy no auto-tune em “Pronto”. É arrastado, ameaçador e digital até à medula sob os comandos de Danja em “That’s tha Homie”. É dos poucos a dar luta ao óptimo novelo rítmico que Terrace Martin arranjou para “Upside Down”. Nada mau, para um gestor de empresas.
13 de Janeiro de 2010
Gabriella Cilmi - "On a Mission"
Nunca lhe tinha prestado grande atenção, mas como não admirar a sua (dela e da canção) sensualidade simultaneamente cristalina mas desconfortável, qual Róisín Murphy?
6 de Janeiro de 2010
4 de Janeiro de 2010
Max Richter
Publicado em Dezembro no Actual do Expresso:
Memoryhouse
Max Richter
BBC/ Fat Cat/ Flur
Lançado em 2002 e agora reeditado, o primeiro álbum em nome próprio do músico e compositor Max Richter sobrevive aos anos passados. Gravado com a BBC Philharmonic Orchestra, “Memoryhouse” segue um conceito usado e muito abusado nos anos 1990, o da banda sonora para um filme imaginário. Sucede que Richter fá-lo com uma eloquência e precisão (da recorrência de motivos sonoros aos títulos funcionais) que impelem o ouvinte a uma consulta, infrutífera, do Internet Movie Data Base. O filme que se ouve em “Memoryhouse” é guiado pelo minimalismo. Paisagens devastadas, geladas e monocromáticas pairam no ar das 18 faixas. A palavra-chave é ‘memória’: esta é uma obra que evoca um século XX europeu em estado de pós-guerra, repleto de fantasmas que ditam a vida dos sobreviventes. Chuva cai durante ‘November’. Um estertor de ‘voz’ a uivar sufoca em ‘Sarajevo’. Há um tecto de nuvens cor de chumbo que nunca levanta deste álbum, nem quando esporádicos loops rítmicos entram num frenesim larvar. Uma obra austera, pungente e invernosa, de um compositor de carreira ainda breve mas consistente.
Diabo na Cruz
Publicado em Dezembro no Actual do Expresso:
Virou!
Diabo na Cruz
FlorCaveira/Mbari
“Virou!” é o mais eufórico disco até agora saído da comunidade FlorCaveira e a confirmação do talento de Jorge Cruz, o mentor dos Diabo na Cruz, como um compositor e produtor que sabe que a distância entre a pop e a música tradicional pode ser nenhuma – e com sageza para fazer uma festa nesse território comum. ‘O Regresso da Lebre’ dá início ao disco com não mais do que a voz de Vitorino e um coro de percussões. A fusão com o rock vem a seguir em ‘Tão Lindo’. No resto deste álbum de 28 minutos há acenos aos Heróis do Mar, rendas e bordados rítmicos reminiscentes do rock progressivo e guitarras cristalinas como as da escola Television-Strokes. Os teclados de João Gil são essenciais no preenchimento cromático, como essenciais são as harmonias vocais de Cruz, B Fachada e Bernardo Barata. “Virou!” usa a noção de modernidade lançada por António Variações para obter resultados muito diferentes: aqui a combinação de raízes e cosmopolitismo também liga o Minho (e Trás-os-Montes, e o Alentejo) a Nova Iorque, mas tudo explode num alucinante e auto-explicativo ‘Corridinho do Verão’.
Lúcifer e os amigos apóstolos
Os Diabo na Cruz são o contraditório pagão dos rigores espirituais da comunidade FlorCaveira. Com a saída de “Virou!”, o líder Jorge Cruz dá graças por uma nova geração que pensa a música em português.
A uma década de distância, percebe-se que já havia na música que Jorge Cruz fazia nos Superego, o trio em que primeiro deu nas vistas, sementes do que agora brota no seu novo projecto, o quinteto Diabo na Cruz. Um quinteto onde Cruz, um aveirense que experimentou anos de labor no Porto antes de fazer as malas para Lisboa, se junta a B Fachada, Bernardo Barata, João Pinheiro e João Gil para dar ao colectivo FlorCaveira o seu braço mais pop-folclórico-funk. A meia surpresa veio em meados de 2009 com o EP “Dona Ligeirinha”. A confirmação tem a forma do agora editado álbum “Virou!”. Onde nem falta uma viçosa bailadeira de rancho a adornar a capa, as saias tradicionais erguendo-se para revelar roupa interior muito século XXI. José Vilhena há-de sentir-se orgulhoso.
Regresse-se à pré-história. Nos anos 1990, nos Superego, Jorge Cruz já cantava em português enquanto fazia rock devedor, mais em espírito do que em som, do deflagrar do grunge. Mas também já acenava à música popular portuguesa, cantando ‘As Armas do Meu Adufe’ ou ‘O Galo É o Dono dos Ovos’, de Sérgio Godinho. “Agora retomei uma coisa que tinha congelado”, explica. “Estaria pronto para tentar isto há dez anos, mas não sei se conseguiria fazê-lo. Acho que, se calhar, tê-lo-ia realizado de uma forma mais tosca.”
O MySpace dos Superego diz que o grupo fechou portas a 11 de Setembro de 2001. Daí para cá, Cruz registou dois discos a solo. Para chegar aos Diabo no Cruz, várias coisas mudaram. “Tive de entrar num módulo um bocado de guerrilha. Desloquei-me para uma área muito mais associada à expressão do que vai dentro, em que ao escrever canções olho bastante para o que a música tem em comum com outras artes. Foi uma questão de perceber o que um gajo tem para dizer. A única coisa que teria de fazer em termos estéticos era tentar criar uma música moderna que fosse exclusivamente portuguesa. Que não pudesse ser de mais lado nenhum. E o facto de ter vindo para Lisboa e de me dar com pessoas que estão interessadas em criar coisas nessa área fez-me lembrar que isto era algo que sempre quis pôr em prática. E esse contacto também permitiu que pudesse pegar nas coisas mais à frente. Saltei uma data de estações e fui logo para um sítio muito confortável. [“Virou!”] Foi o disco mais confortável, e até mais fácil de fazer, para mim.”
Quando Jorge Cruz aterrou em Lisboa, já conhecia parte do elenco do eixo FlorCaveira/ Amor Fúria: “O João Coração era baterista de uma banda que surgiu depois dos Superego, a FanfarraMotor, que foi de certa forma a primeira ideia parecida com Diabo na Cruz, porque era quase só música tradicional. Tínhamos uma maquetazita, íamos para estúdio, e foi nesse momento que comecei uma carreira sozinho, porque a banda acabou na sala de gravações; tínhamos já combinado trabalhar com o Carlos Guerreiro, com o Paulo Marinho, e tínhamos uma ideia de fusão do rock com [música tradicional]. Em estúdio aquilo não estava a correr bem, havia uma crise meio existencial sobre o que nós queríamos, o grupo desmembrou-se e eu tinha tempo de estúdio comprado. Decidi começar a gravar, à viola, canções que eu tinha, e foi assim que veio a cena do nome próprio. Não foi nada planeado.” A carreira a solo rendeu “Sede” (2003) e “Poeira” (2006), e uma cantiga (‘Nada’) em passagem na novela “Fascínios”, da TVI. Entretanto, “o João Coração queria gravar um disco, e estava super-entusiasmado com o Tiago Guillul e o Samuel Úria. O Manuel Fúria eu já tinha conhecido. Então, um dia, jantámos todos. De repente, descobri perspectivas absolutamente diferentes, mas com afinidades muito grandes, mais em relação ao meu ‘eu’ antigo do que àquilo que estava a fazer naquele momento. Naquela altura, eles viam-me como o gajo que tinha música nas novelas. Além disso, uns são super de direita e eu não sou de direita, são religiosos e eu não acredito em Deus, e isto criou logo ali um despique e uma tensão amigável e interessante. E fomos para Sesimbra gravar”. Em Sesimbra nasceu “Nº1. Sessão de Cezimbra”, de Coração. Entretanto, Cruz também já produziu os álbuns de apresentação d’Os Golpes e de João Só e Abandonados, e co-produziu o novo registo, homónimo, de B Fachada. Confessa que não tem som de marca, mas “gostava que se percebesse que há um cuidado, uma exigência. E gostava que pelo filtro só passassem canções fortes, válidas e bem espremidas”.
Uma das características que Jorge Cruz mais aprecia nesta comunidade de artistas mais jovens é o facto de estarem “comprometidos com uma ideia de identidade. Não lhes faz sentido ser de outra maneira. Vou-te dar uma parangona para tu escreveres, se quiseres acabar com a minha carreira: se fosse escrita uma história da música portuguesa, a minha geração, que é a dos anos 90, merecia um parágrafo muito pequeno em que se dissesse que tinha vergonha de ser portuguesa. E esta não. Estão muito mais à vontade. No meu tempo, escrever em português soava sempre mal. Essas são questões que, para estas pessoas, não fazem qualquer sentido.” A geração de Jorge Cruz era a geração do fazer-como-lá-fora? “Era.”
“Virou!”, pelo contrário, traz 11 canções feitas por quem tem ouvidos cosmopolitas mas os pés lucidamente assentes no rectângulo. É “desconstruir um bocado a imagem que nós temos do que é o sagrado português e lançá-lo para a confusão do povo. A nossa intenção é andar pela música popular portuguesa, e a ideia é trabalhar no proibido. É um bocado: estamos a fazer uma grande rockalhada, o que é que era proibido fazer agora? Era tocarmos mesmo um corridinho. É tentador metermo-nos por aí. [Pausa] No fundo, é capaz de haver um lado meio provocatório nisso”.
Time Out 117 & 118
Time Out 117:
Melhores discos internacionais, portugueses e de jazz & clássica de 2009.
Alicia Keys
Time Out 118:
Catarina Wallenstein
Aos 23 anos, já contracenou com Catherine Deneuve e foi musa de Manoel de Oliveira. Em 2010, Catarina Wallenstein vai andar pela televisão envolvida em histórias de vampiros. É uma actriz destemida, magnética. E canta.
Se alinhavasse uma lista de desejos para 2010, desencantar umas horas suplementares de sono estaria no topo dos desejos de Catarina Wallenstein. Mas coisa rápida. Falar com a actriz (e cantora, sobretudo de ópera) de 23 anos, que transporta um apelido com longa e excelente reputação nos palcos portugueses, é como experimentar a periferia de um turbilhão.
O ano 2009 trouxe Catarina Wallenstein por duas vezes para as salas de cinema, noutros tantos papéis com pouco mais em comum do que a intensidade magnética do seu olhar. Foi uma Mariana de Cruz silenciosa mas abnegada em Um Amor de Perdição, de Mário Barroso; e a mulher que Manoel de Oliveira coloca num subtil pedestal em Singularidades de uma Rapariga Loura. Estas composições juntam-se ao par de filmes em que Catarina participou em 2007 (Lobos, de José Nascimento; e Après Lui, de Gaël Morel, com Catherine Deneuve no papel principal), formando um corpo de actuações no grande ecrã muito distintas. “Eu queria que fossem ainda mais distintas. Não quero fazer de miúda apaixonada e super-querida e super-fofinha [risos]. Queria fazer de má, de perversa.” Catarina Wallenstein não corre o risco de encalhar em personagens estereotipadas: a única “menina ingénua, a descobrir a sedução, a fazer olhinhos” que nomeia é a Júlia Perestrelo que encarnou na série A Vida Privada de Salazar. As suas passagens pela televisão têm-se focado em “projectos curtos, onde tenho um pouco mais de tempo do que nas novelas. Acabei agora de gravar o Destino Imortal para a TVI, que são seis episódios, e até pôr a personagem nos carris aquilo mete um bocado de medo, porque percebe-se que a exposição vai ser maior, as audiências são enormes… Assustam-me os horários nobres, assusta-me a imprensa cor-de-rosa”. Destino Imortal estreia-se em 2010, tem Maria João Luís, Rogério Samora e Pedro Barroso no elenco, e é uma espécie de história de amor que mete vampiros e seres humanos fora do normal.
Catarina Wallenstein decidiu ser actriz aos 17 anos. Até aí, a ideia era seguir o caminho musical traçado pelos progenitores: “A minha mãe é cantora lírica. Chama-se Lúcia Lemos e é professora de técnica vocal. O meu pai [Pedro Wallenstein] é contrabaixista na Orquestra Sinfónica Portuguesa. Toquei violoncelo durante uns anos, mas queria era ser cantora como a minha mãe.” Ainda fez parte de coros de ópera no São Carlos, mas um encontro meio descomprometido com o teatro alterou-lhe os planos. Todavia, Catarina não quer deixar de cantar – “lírico, fados, jazz, o que for, é para mim que eu canto”. Para ela mas não só: no Verão, alinhou na série mensal “Espontâneos do Fado”, no Museu do Fado: “Diverti-me muito. Respeito bastante o fado. Tentei fazê-lo o mais à séria que sei.”
Onde se imagina Catarina Wallenstein daqui a um ano? “Não faço ideia. Tanto aqui como na outra ponta do mundo. Vejo-me actriz; não me vejo inundada de trabalho. Mas não é por uma questão derrotista. Aquilo que me apetece defender não há na grande maioria dos trabalhos. Por isso, se me mantiver com as minhas convicções, não vou estar a trabalhar sem parar. O que não faz mal: enquanto puder sobreviver devagarinho, assim será. Quando não tiver que fazer… Tenho duas mãos, trabalho noutra coisa qualquer.”
Amamos os nomes dos filmes porno do Cine Bolso e Cine Paraíso
Odiamos enviar e receber SMS a martelo (sobretudo na passagem de ano)
King Midas Sound
Waiting for You
Hyperdub/Flur
Nunca se tinha ouvido Kevin Martin assim, tão pouco abrasivo. Para Waiting for You, o produtor londrino que ganhou fama na electrónica fabril e tóxica (nos Techno Animal) e no dancehall x grime claustrofóbico (como The Bug) juntou-se ao cantor e poeta de Trinidad Roger Robinson e à japonesa Hitomi e fez algo de uma inusitada delicadeza. Certas canções partilham o apreço pelo dub(step) desertificado de Kode9, o dono da editora Hyperdub. Noutras faixas, a voz sumida de Robinson (e o contraponto feminino) lembram sobretudo Tricky. Nos momentos mais bem conseguidos, podia estar-se a ouvir os Massive Attack dos dias chuvosos de Protection. Sucede que este é um repertório que pede uma boa relação com o conceito de melodia – pena que disso Kevin Martin ainda não perceba tanto como de texturas ou subgraves...
Scooter
Under the Radar Over the Top
Sheffield Tunes/Edel
O trio Scooter é o elo perdido entre o admirável entretenimento imutável dos Status Quo e a intensidade tecnológica dos Young Gods, mas um elo inteiramente devotado à euforia comunitária das raves, ao tecno, ao happy hardcore. O grupo é merecida e brutalmente bem sucedido na sua Alemanha, mas ao longo de 14 anos de carreira e igual número de álbuns de originais também é frequente brotarem singles de sucesso por todo o planeta. Under the Radar... sucede à obra-prima Jumping All Over the World, recuando no volume de ganchos pop alheios reciclados mas sem desleixar na imponência dos edifícios sónicos-neurológicos. Um disco menos imediato mas mais variado, entre temas com refrões em italiano, citações de Lionel Ritchie e Black e referências ao negrume dos Depeche Mode via A-Ha.
Paul McCartney
Good Evening New York City
MPL/Universal
Quase 44 anos exactos depois de os Beatles despacharem uma dúzia de canções em meia hora contra um muro de gritaria adolescente no Shea Stadium, em Nova Iorque, Paul McCartney regressou. Regressou em Julho deste ano, o ano em que anunciou que a sua próxima digressão é a última em que se mete, e instalou-se por três noites no novo em folha Citi Field, estádio que substituiu o finado Shea. Trouxe uma banda compacta e tradicional (um quarteto; sim, as orquestras e as fileiras de sopros, quando necessárias, saem dos teclados, o que pode soar esquisito, por exemplo, em “Eleanor Rigby”), um repertório que tem Beatles, Wings, McCartney em nome próprio e Fireman, e trouxe um saber estar em palco absolutamente inatacável.
É esse saber estar em palco esculpido em décadas que a realização de Good Evening New York City consegue captar com estilo mas sem especial ostentação (desta vez é elogio), e é a mais-valia de absorver a presença visual de McCartney que torna o DVD amplamente preferível aos dois discos compactos que o acompanham nesta edição – os alinhamentos de CDs e DVD têm exactamente as mesmas 33 faixas.
O filme dos concertos não inventa. Reflecte com sobriedade q.b. a magnitude do espectáculo num Citi Field gigantesco, com gente até ao céu, e um palco ladeado por ecrãs do tamanho de arranha-céus, mais um no fundo de cena por onde passam os Beatles todos, psicadelismo, fogo-de-artifício e até Barack Obama (durante “Sing the Changes”). Pelo meio também há imagens “instáveis” ao nível da plateia, incluindo a ocasional mensagem de fãs, gente a dançar ou abraçada, mais um ror de cartazes. E há homenagens a George Harrison, numa versão de “Something”, e a John Lennon, com “Here Today” e um “Give Peace a Chance” misturado com “A Day in the Life”.
16 de Dezembro de 2009
15 de Dezembro de 2009
Frankie Goes to Hollywood
Publicado em Dezembro no Actual do Expresso:
Frankie Say Greatest
Frankie Goes to Hollywood
ZTT/ Universal
Welcome to the Pleasuredome
Frankie Goes to Hollywood
ZTT/ Mbari
Nasceram da refrega punk e pós-punk de Liverpool. Os seus dois elementos mais visíveis eram efusivamente homossexuais. Tiveram uma linha de t-shirts (‘Frankie Say Relax Don’t Do It’, ‘Frankie Say War! Hide Yourself’, etc.) que não mais saíram do imaginário pop. Encontraram a casa certa na ZTT, onde foram abençoados pela produção state of the art megalómana de Trevor Horn e pelos manifestos de Paul Morley. Entre 1984 e 85, o êxito desmedido dos Frankie Goes to Hollywood (FGtH) serviu de sublimação da Nova Pop iniciada com os ABC e os Human League. Uma sublimação que deitou mão ao sexo puro e duro (em ‘Relax’), à guerra-fria (em ‘Two Tribes’) e à religião no seu estado mais tocante e kitsch (‘The Power of Love’). A curta vida dos FGtH foi a de um projecto de arte popular destinado a fixar o ar do tempo. A sua obra-prima, “Welcome to the Pleasuredome”, reaparece com adequada frequência nas lojas. Um segundo álbum, “Liverpool”, foi um flop a pedir reapreciação. E é com esta produção escassa e concentrada que os compiladores têm de se amanhar. Se prezar os objectos físicos, opte por “…Pleasuredome” ou percorra o eBay em busca dos sumptuosos (nas misturas e no grafismo) máxi-singles originais.
10 de Dezembro de 2009
Equipa Principal
Comunidade
- A Rute É Estranha
- Banana Killers & Co.
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